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Cuidado com o efeito Boomerang

Assistimos nos últimos meses a um extremar de posições relativas a uma realidade social que muitos consideram ser a maior pandemia dos nossos dias – a adição à nicotina pelo consumo de tabaco.

É evidente que a invenção ou descoberta do consumo do tabaco, como a de outras substancias psicoativas, está tão enraizada no nosso próprio desenvolvimento como espécie que é difícil conceber a humanidade sem estas. Pensemos no que poderia ser a última ceia de Cristo sem o consumo de álcool e ficamos, desde logo, com uma ideia.

É evidente que o fumo do tabaco é hoje um gravíssimo problema de saúde pública, tal como o são todos aqueles que estão associados à combustão e ao fumo como é o caso da poluição atmosférica e o alarme social nesta matéria nunca deverá ser escatimado. Até aqui estamos todos de acordo e nesse sentido foi criada este ano a plataforma: Portugal sem Fumo, para a qual convido todos os interessados a aderir.

O problema na criação de falsas polémicas no âmbito do consumo do tabaco emerge precisamente quando estas são falsas. E isto vai nos dois sentidos.

Por um lado, nos anos 80 e 90, quando emerge a consciência social dos efeitos devastadores da combustão do tabaco na saúde das pessoas, os produtores de tabaco iniciaram uma campanha de descrédito a essa evidência, criando a dúvida nas pessoas e isso levou a que, passados poucos anos, tivessem sofrido pesadas multas e pagar indemnizações milionárias por terem ocultado a verdade sobre os seus produtos, o que hoje já não acontece. Para além disso, a sociedade mobilizou-se e os efeitos do chamado fumo ambiente (tabagismo passivo) estão hoje mitigados e na maioria dos países é interdito fumar em espaços públicos fechados.

Mas estas grandes vitórias da saúde pública, lideradas pela OMS, acabam por não conseguir o objetivo que todos desejaríamos – a completa cessação do consumo do tabaco. Como é sabido, os números sobre a redução de fumadores não estão a diminuir com a intensidade esperada. Apesar de termos as mais dramáticas imagens e avisos de “fumar mata” nos maços de tabaco e a total ausência de publicidade para o tabaco nos media, as pessoas continuam a fumar estando hoje mais cientes do que nunca dos seus malefícios. Porquê?

E a verdade é que o problema do consumo do tabaco esconde um outro problema que é o da adição a uma substância psicoativa – a nicotina. E hoje as respostas em saúde pública às substâncias aditivas evoluíram extraordinariamente nos últimos anos e Portugal é mesmo considerado um caso de sucesso mundial nesta matéria. Porque não aplicar ao consumo do tabaco e da nicotina a mesma fórmula de sucesso em combinação com tudo o que já tem vindo a ser feito até aqui? Todos os esforços são poucos para poder salvar vidas e é disso que se trata aqui.

Atenção que o efeito boomerang pode funcionar em sentido inverso. A opinião pública está atenta e saberá extrair as consequências. Tal como nos anos 90 os produtores de tabaco esconderam a verdade, os agentes de saúde que hoje lançam a dúvida sobre os efeitos de redução de risco dos novos produtos de tabaco sem combustão que eliminam do consumo da nicotina os agentes causadores de cancro, podem estar a lançar um novo boomerang.

Num recente artigo publicado numa das mais prestigiadas revistas científicas de saúde pública – Truth Telling about Tobacco and Nicotine – os autores avisam que o público está consciente que estas incertezas são geradas de forma artificial e que a verdade baseada na evidência científica e no efeito prático da redução de consumo de tabaco, tal como já ocorre em países mais evoluídos como o Japão, acabará sempre por vir ao de cima. Contra factos não há argumentos e precisamos de factos, em vez de alimentar incertezas que podem trazer piores consequências para quem as alimenta.

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Crédito do cartoon acima: Manila Times.

By | 2019-04-06T19:34:44+01:00 Abril 3rd, 2019|Categories: EDITORIAL|0 Comments

About the Author:

Licenciado em Psicologia pelo ISPA, mestrado pela Universidade de Sheffield e doutorado pela Universidade de Lancaster. Desde 1996, foi professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada e no ISEG (Escola de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa). Como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, concluiu o doutoramento na Management School da Universidade de Lancaster em Novembro de 2000. Foi consultor do Governo Regional da Madeira (Direção Regional de Saúde) e levou a cabo diversos trabalhos de consultoria e projetos de investigação para o ISEG, INETI, Câmara Municipal de Évora, várias empresas do grupo EDP, Ministério da Saúde Portugal, Eureko BV, Observatório Europeu da Droga, e PWC, em Espanha onde reside. Como facilitador profissional certificado e membro da IAF (International Association of Facilitators), iniciou as Cimeiras Ibéricas de Líderes de Saúde em Espanha e o Fórum do Hospital do Futuro em Portugal. É especializado em GDSS (sistemas de apoio à decisão em grupo) e projeta intervenções para otimizar a mudança e a inovação em saúde e educação. Desde 2020, é cofundador da Digital Collaboration Academy, uma empresa com sede em Londres, dedicada a facilitar o caminho para a adoção de ferramentas para a colaboração digital. Autor e editor de "Arquitetar a Colaboração", o título de uma série de livros dedicados à facilitação de grupos, seus princípios, métodos e técnicas, que podem ser aplicados essencialmente em duas áreas: Por um lado, no âmbito da gestão, para obter resultados mais eficazes com o trabalho em grupo nas organizações - os líderes facilitadores sabem como criar e dirigir equipes de alta performance (ver volume 1). Mas, também, no âmbito da consultoria, para intervir mais eficazmente com a 'facilitação de grupos' e entregar um serviço de qualidade, nos diversos setores empresariais e sócio comunitários (ver 2º volume).

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