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EDITORIAL: A liderança carismática patológica

Se há uma área de estudo nas ciências sociais que tenha sido alvo de profundo estudo e investigação, essa é, sem dúvida, a da liderança. E, tal como na política ou no futebol, todos temos a nossa opinião e oferecemos sábios palpites quando falamos desta ou daquela pessoa como sendo um líder.

Directivo, autoritário, ditador são os adjectivos mais habituais para descrever aquela pessoa que exerce a autoridade dando ordens. Democrático, participativo, colaborativo, são os termos mais usados para descrever os líderes que envolvem os outros na sua tomada de decisão e geram consensos.

Mas se perguntarmos qual destes dois estilos de liderança é o melhor, a resposta certa é: depende das circunstâncias. Emerge aqui um outro estilo de liderança a que chamamos contingencial. Ou seja, a actuação do líder deve ser adaptada às circunstâncias de cada momento.

Dou um exemplo muito prático. Se um avião subitamente perde potência ao aproximar-se da pista a última coisa que deverá acontecer será que um comandante inicie um processo colaborativo para perguntar na sua cabine qual o consenso para decidir o que fazer. Se ela ou ele está na posse de toda a informação para decidir, deverá fazê-lo de forma diretiva e dar as ordens necessárias à sua tripulação para evitar assim um desastre (ver aqui um caso real).

No entanto, num voo em altitude de cruzeiro que, de repente, começa a perder altitude sem que o comandante tenha a mínima ideia do que está a acontecer, somente a sua capacidade para gerar um processo colaborativo na cabine de voo, para que ocorra uma total partilha de informação e rápida geração de ideias, poderá salvar vidas. Tal foi o sucedido num caso real descrito por Daniel Coyle no livro The Culture Code sobre os segredos de um excelente trabalho em equipe.

Aprender a adaptar um estilo de liderança às circunstâncias não é fácil. Mas é extremamente compensador. A maior dificuldade surge quando estamos perante um estilo de liderança carismático, no qual são as próprias características pessoais do líder que influenciam os seus seguidores. Este é o caso mais comum na vida política, e grandes líderes políticos desde Alexandre o grande, Cleópatra ou Júlio César na antiguidade, passando por Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler ou Joseph Stalin, já no século XX, ficaram conhecidos pelos melhores e piores motivos.

Sempre que um líder carismático, cai na tentação de se apaixonar por si próprio, e não ver os limites da razoabilidade das circunstâncias, entramos num perigoso processo de liderança patológica e não são poucos os casos que podemos observar nos dia de hoje. Não irei falar aqui de Donald Trump e de um recente artigo da Psychology Today que aborda este tema, ou até da “viagem ao futuro” de Nicolas Maduro na Venezuela. Escrevo sobre um caso mais próximo na área da saúde, a liderança de um dos sindicatos de enfermeiros em Portugal que está na origem das greves mais condenadas por toda a sociedade e que culmina com a sua entrada em greve de fome.

As consequências de alguém que tem a responsabilidade de liderar um grupo de pessoas e que não seja capaz de adaptar o seu estilo e forma de atuar às circunstâncias cambiantes, podem ser devastadoras. Por desgraça, nos casos de Bonaparte, Hitler ou Stalin com elevadíssimos custos para a humanidade.

Por norma, em organizações e sociedades democráticas, como é o caso de um sindicato, ou até de um país, um ciclo de controle deveria estar garantido à partida, mas os custos podem ser igualmente elevados se quem detém a liderança formal de uma organização, consegue subverter os sistemas de controle e auto-perpetuar-se no poder pelo seu carisma pessoal.

Qual o estilo de liderança que poderá ajudar um sindicato, ou até um país, a encontrar formas mais eficazes de chegar aos seus objetivos? Precisamente aquele líder que melhor consiga realizar o diagnóstico das circunstâncias em cada momento e adaptar o seu estilo em conformidade. Hoje em dia, ele ou ela será um líder facilitador sempre que seja imprescindível que sejam os próprios subordinados a encontrar as melhores soluções para os problemas, tal como no exemplo acima do avião que perde altitude sem uma causa aparente.

No caso dos enfermeiros, é fundamental compreender que um jogo de soma nula – um ganhador e um perdedor – deixou de ser eficaz. Nos dias de hoje, para conseguir melhores salários e condições de trabalho para os seus associados, um sindicato terá que propor ao governo as medidas concretas que possam produzir esse diferencial salarial, seja por via de ganhos de produtividade, seja por medidas estruturais na própria organização do Estado. E são essas ideias inovadoras que poderão fazer toda a diferença.

O Fórum Saúde XXI, do qual faço parte, é um espaço de debate livre e aberto, no qual todos os stakeholders participam em pé de igualdade independentemente do seu poder de influência (político, económico ou científico) e que visa a cooperação e o debate construtivo, procurando encontrar respostas e propor soluções para os desafios da saúde do século XXI. Ao longo de 2018, foram debatidas um conjunto de ideias inovadoras e produzidas recomendações que uma vez postas em prática poderiam gerar melhores salários e condições de trabalho para todos os profissionais do SNS. Poderá obter mais informação sobre este relatório: aqui.

Crédito da imagem: Yerba Buena Center for the Arts, San Francisco. https://ybca.org/about-us

By | 2019-03-05T13:08:43+01:00 Março 3rd, 2019|Categories: EDITORIAL|Tags: , , |0 Comments

About the Author:

Licenciado em Psicologia das Organizações pelo ISPA, mestrado em Gestão de Informação pela Universidade de Sheffield e doutorado em Ciências de Gestão pela Universidade de Lancaster. De 1997 a 2017, foi professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada e no ISEG (Lisbon School of Economics and Management), onde levou a cabo diversos trabalhos de consultoria e projetos de investigação para o IDEFE, INETI, Câmara Municipal de Évora, Ministério da Saúde Portugal, Eureko BV no Benelux. Foi consultor do Governo Regional da Madeira (Direcção-Regional de Saúde), Observatório Europeu da Droga, várias empresas do grupo EDP, Atecnic, Iberconsult e PWC (Price Waterhouse Coopers), em Espanha. Co-fundador do Fórum Hospital do Futuro e do Fórum Ibérico de Líderes em Saúde. Desde 2012 é membro da IAF - International Association of Facilitators e desde 2018 é autor de "Arquitetar a Colaboração" uma série de livros dedicada à facilitação de grupos e liderança facilitadora: https://www.architectingcollaboration.com/

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