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EDITORIAL: Afinal o Obamacare continua

Este é mais um claro exemplo daquilo que pode ser a actividade política num país democrático. Apenas imagino o sentimento de impotência do actual presidente dos Estados Unidos, que tanto apregoou contra o poder fático do ‘establishment’ em Washington. Com mais ou menos matizes o serviço nacional de saúde dos EUA irá continuar como até aqui. Como qualquer SNS a sua função social é tão critica que se converte num componente fundacional para qualquer nação como podem ser as suas infrastruturas viárias ou as suas forças militares e de segurança.

Escrevi há uns tempos, sobre a ‘ilusão de liderança’ em grandes empresas e organizações as quais se comparam muitas vezes ao governo de um Estado. Nestas grandes organizações, as decisões do seu máximo Presidente raramente têm um reflexo imediato nos seus resultados. Por uma parte temos o ‘efeito de inércia’, que no caso do Obamacare ficou bem patente. Mudar qualquer coisa que está em marcha e que segue uma lógica operativa que está já impregnada nas rotinas de trabalho é extremamente dificil. Por outra parte, sabemos que as pessoas nas organizações de saúde não são como os militares num exército. Em saúde, sabemos que a execução cega de ordens superiores pode trazer resultados indesejados – a autonomia é importante. Mas também sabemos que a disciplina operacional é absolutamente necessária para assegurar um serviço de qualidade.

Quem observa hoje a disciplina financeira do SNS português seguramente apreciará os contributos de vários ex-ministros que se sucederam em várias legislaturas com diferentes cores políticas, mas que partilharam todos o mesmo propósito – reduzir despesa. Nesse sentido, um futuro ministro da saúde despesista terá certa dificuldade em tornar mais laxa a gestão da saúde. Apesar das enormes pressões dos gastos em medicamentos e dos vários grupos profissionais que reinvindicam em permanência melhores condições salariais e menos horas de trabalho o etos de evitar a despesa em Saúde está bem arreigado.

Mas esta é afinal a extraordinária ciência da boa gestão, que alguns consideram ser uma arte. É essa capacidade de fazer acontecer ‘milagres’, como os que têm ocorrido com o Obamacare, que poderá fazer que o SNS dos EUA possa continuar a existir e dar o melhor de si aquela parte da população que estaría completamente desprotegida sem ele. Esperamos que esta noticia posso servir de inspiração para o SUS, no Brasil, e todos os serviços estatais de saúde dos países lusófonos, que possam continuar a existir e a crescer para cumprir assim as suas missões tão essenciais.

 

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By | 2018-04-10T12:07:20+01:00 Agosto 1st, 2017|Categories: EDITORIAL|0 Comments

About the Author:

Licenciado em Psicologia pelo ISPA, mestrado pela Universidade de Sheffield e doutorado pela Universidade de Lancaster. Desde 1996, foi professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada e no ISEG (Escola de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa). Como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, concluiu o doutoramento na Management School da Universidade de Lancaster em Novembro de 2000. Foi consultor do Governo Regional da Madeira (Direção Regional de Saúde) e levou a cabo diversos trabalhos de consultoria e projetos de investigação para o ISEG, INETI, Câmara Municipal de Évora, várias empresas do grupo EDP, Ministério da Saúde Portugal, Eureko BV, Observatório Europeu da Droga, e PWC, em Espanha onde reside. Como facilitador profissional certificado e membro da IAF (International Association of Facilitators), iniciou as Cimeiras Ibéricas de Líderes de Saúde em Espanha e o Fórum do Hospital do Futuro em Portugal. É especializado em GDSS (sistemas de apoio à decisão em grupo) e projeta intervenções para otimizar a mudança e a inovação em saúde e educação. Desde 2020, é cofundador da Digital Collaboration Academy, uma empresa com sede em Londres, dedicada a facilitar o caminho para a adoção de ferramentas para a colaboração digital.

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