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EDITORIAL: O Santo Graal e a Távola Redonda

Após as eleições em Outubro e tomada de posse do novo governo, a pujante sociedade civil no setor da saúde em Portugal entra em velocidade cruzeiro preenchendo os nossos calendários com uma miríade de conferências e eventos, muitos com sobreposição de datas no mesmo dia.

Pedro Pina, Vice-President Global Client Partner, Google um dos oradores na Conferência Prémios de Saúde Sustentável em Lisboa.

Por exemplo, no passado dia 21 de Novembro e só em Lisboa, a cerimónia do 120º Aniversário da DGS, coincide com a Conferência de Entrega de Prémios da Saúde Sustentável e ainda com um evento da APDH, SNS no Feminino (ver este meu desabafo no LinkedIn aqui)

Sem dúvida, um Ministro da Saúde em Portugal teria que ter o dom da ubiquidade para atender a todos os convites que lhe são dirigidos e começo a pensar que os dois Secretários de Estado neste ministério talvez possam ser insuficientes. No espaço de duas semanas coincidi por diversas vezes com ambos, incluindo um Sábado.

Todos estes eventos são de uma grande importância e mérito social, com destaque para a X Conferência do Health Cluster Portugal, ou a excelência científica das conferências Colóquio da ANDAR ou da SPP sobre o Pulmão e o Ambiente, sem dúvida que o Governo faz bem em estar presente em todas elas.

O Santo Graal

O clamor que mais se expressa nestas conferências e eventos em Saúde vai para aquilo que designo pelo “Santo Graal” da governação – chega de diagnósticos, temos que passar à ação.

Mas não basta uma ação qualquer, está claro. É preciso que a ação do Estado seja eficaz e não seja geradora de resistências que só atrasam todo o processo de mudança e os objetivos que se pretendem alcançar – um melhor SNS para todos.

Ouvi recentemente um candidato à liderança do PSD dizer que este Primeiro-Ministro só empata. Subjacente a este comentário, existe uma crítica à falta de uma liderança do tipo ‘diretivo’ que faça avançar o país mais rapidamente. Ora todos recordam que esse estilo de liderança é ilusório e até pode ser contraproducente quando não reúne os consensos necessários (veja aqui esta noticia sobre o bloqueio da Ponte e o fim do Cavaquismo)

A Távola Redonda

Segundo esta popular lenda medieval, esta mesa foi criada com este formato para que não tivesse cabeceira, representando a igualdade de todos os seus membros. Enquanto o Rei Artur (máximo detentor do poder) reunia e governava a partir do consenso existente entre os seus pares ao redor da távola, imperava a harmonia e a prosperidade da nação era alcançada.

Eis aqui a fórmula de uma governação de sucesso. Em situações de grande complexidade e onde seja crucial a adesão de todos, os detentores de um cargo de máximo poder devem saber usar esse poder para criar uma ’távola redonda’ e alcançar o máximo consenso entre as partes implicadas na resolução de um problema. Que isso seja mais demorado e possa parecer que “empata”, é outra questão.

Resultados práticos

Com esta metodologia geradora de consenso entre pares, realizou-se no passado dia 29/10 o Think Tank – O Despertar de um Sonho – para produzir recomendações sobre a sustentabilidade do SNS e a sua transformação digital. Um conjunto de dirigentes de uma variedade de organizações envolvendo os ecossistemas de saúde público, social e privado, produziram um conjunto de recomendações que em breve serão publicamente apresentadas.

Pela sua pertinência destaco aqui apenas uma:
Criação de um dispositivo de governação estratégica de todo o Sistema Saúde (SNS e setor público, setor privado e terceiro setor).

Membros do Think Tank – O despertar de um Sonho no final de uma intensa jornada de reflexão e debate, no grande auditório da Microsoft em Lisboa.

Quando no Parlamento de uma nação como Portugal se debatem a colocação de médicos pediatras num grande hospital na área metropolitana de Lisboa, tal como se estivessemos na assembleia municipal de uma pequena cidade do interior onde faltam médicos, é um sintoma da ausência deste “dispositivo de governação estratégica” e da falta que faz.

Quando vemos que um partido da oposição a este governo, apresenta 15 medidas de emergência para salvar o SNS tais como: a planificação plurianual de investimento no SNS, o levantamento das necessidades de recursos humanos em todas as categorias até 31 de dezembro, ou alargar o funcionamento do centros de saúde e abolir as taxas moderadoras nos cuidados de saúde primários, entre outras, são claramente medidas que deviam ser emanadas e coordenadas por uma ’távola redonda’ para a coordenação estratégica da Saúde em Portugal e não exclusivamente do SNS, incluindo outras entidades relevantes e, por inerência, as Regiões Autónomas portuguesas.

Post Scriptum. A todos os interessados em saber como acelerar os processos de criação de consenso num grupo podem participar no próximo curso “Conduzir a Inteligência Coletiva” que o col.lab | collaboration laboratory organiza este mês de Dezembro e Janeiro próximo.

Crédito da imagem.

By | 2019-12-03T09:10:56+01:00 Dezembro 2nd, 2019|Categories: EDITORIAL|0 Comments

About the Author:

Licenciado em Psicologia das Organizações pelo ISPA, mestrado em Gestão de Informação pela Universidade de Sheffield e doutorado em Ciências de Gestão pela Universidade de Lancaster. De 1997 a 2017, foi professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada e no ISEG (Lisbon School of Economics and Management), onde levou a cabo diversos trabalhos de consultoria e projetos de investigação para o IDEFE, INETI, Câmara Municipal de Évora, Ministério da Saúde Portugal, Eureko BV no Benelux. Foi consultor do Governo Regional da Madeira (Direcção-Regional de Saúde), Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT), várias empresas do grupo EDP, Atecnic, Iberconsult e PWC (Price Waterhouse Coopers), em Espanha. Co-fundador do Fórum Hospital do Futuro e do Fórum Ibérico de Líderes em Saúde. Desde 2012 é membro da IAF - International Association of Facilitators e desde 2018 é autor de "Arquitetar a Colaboração" uma série de livros dedicada à facilitação de grupos e liderança facilitadora.

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