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Entrevista a Maria Eugénia Saraiva, Presidente da Liga Portuguesa Contra a Sida

A SIDA que foi num determinado momento um foco de alarme global e considerada quase como uma pandemia, passou a ser quase despercebida nos dias de hoje. Significa isto que podemos prescindir de organismos como a Liga Portuguesa contra a SIDA (LPCS)? 

– Na minha perspetiva, penso que os avanços conseguidos ao nível da terapêutica e cuidados médicos foram fundamentais para alterar a situação do VIH e SIDA. Atualmente, temos em Portugal uma epidemia de tipo concentrado, afetando as populações com comportamentos particularmente vulneráveis. No entanto, há ainda um longo trabalho pela frente. Continua a ser importante a aposta no diagnóstico precoce da infeção por VIH e a correta e atempada referenciação das pessoas diagnosticadas para o acompanhamento hospitalar, continua a ser importante acabar com o estigma e discriminação. Em Portugal, à semelhança de outros países da União Europeia, estima-se que a proporção de pessoas com diagnóstico tardio da infeção por VIH continua elevada.

De facto a importância das organizações de base comunitária, como a LPCS, actualmente a mais antiga na área das doenças infecciosas é primordial no sucesso da resposta à infeção por VIH e à SIDA e cada vez mais às outras Infecçoes Sexualmente Transmissíveis, onde incluímos as Hepatites Viricas e o HPV.

– Estas organizações constituem-se parceiras fundamentais dos serviços de saúde, pois actuam em contextos de proximidade, chegando às pessoas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade, que habitualmente não procuram os sistemas de saúde e serviços sociais. As estruturas da comunidade procuram responder a necessidades identificadas das pessoas que vivem com a infeção por  VIH, ou VHB, VHC, através da disponibilização de serviços ao nível do apoio domiciliário, apoio psicossocial, apoio residencial, acesso a informação e a meios preventivos e acesso ao aconselhamento, rastreio e diagnóstico, referenciação hospitalar e de combate ao estigma e à discriminação.

 

Numa vertente dupla  prevenção vs. apoio a doentes, quais são as prioridades da LPCS e quais os principais serviços que oferece?

– Na minha perspetiva, é fundamental o apoio aos doentes, mas continua a ser importante a aposta na prevenção

Há cada vez menos pessoas a morrer de SIDA e há cada vez mais pessoas a viver com a infeção, sendo por isso fundamental garantir a qualidade de vida destas pessoas. Neste sentido, a LPCS disponibiliza, gratuitamente, serviços de atendimento e acompanhamento psicossocial dirigidos às pessoas que vivem com a Infeção por VIH e SIDA e outras IST e aos seus familiares/cuidadores, como o apoio social, psicológico, jurídico e nutricional. Tem em funcionamento há 26 anos, a Linha SOS SIDA 800 20 10 40, um serviço de atendimento gratuito, confidencial e anonimo, a funcionar diariamente entre as 17h30 e as 21h30, desde julho de 1991, destinado a prestar informações, esclarecimentos, orientação e apoio a todas as situações relacionadas com a problemática das Infecçoes Sexualmente Transmissíveis em particular o VIH e a SIDA e as Hepatites Viricas

Tendo em conta que a  nível mundial, as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) permanecem um desafio para a Saúde Pública quer devido à sua elevada prevalência e aumento progressivo da incidência, quer pela dificuldade de implementação de estratégias de diagnóstico precoce, o que representa inúmeras consequências económicas e sociais, a Liga pretendeu inovar através da conceptualização de um projecto de intervenção numa Unidade Móvel de Rastreios (UMR) . A “Saúde + Perto” surge assim em 2012, com o objectivo de ser  acessível aos cidadãos, com a possibilidade de proporcionar aconselhamento em novas oportunidades de contacto e de intervir em contextos sociais e culturais específicos, facilitando o acesso das populações mais vulneráveis e com um risco mais elevado de exposição às IST.

Sabemos que a investigação sobre a SIDA aumentou muito nos últimos anos, a LPCS intervém nesta vertente? Quais os principais produtores de conhecimento científico sobre a SIDA em Portugal?

– Os projetos promovidos pela LPCS contemplam habitualmente uma vertente de investigação social, em que procuramos contribuir para o conhecimento científico nesta área, cumprindo os nossos objectivos estatutários

 A Liga Portuguesa Contra a SIDA tem por objecto o apoio aos indivíduos infectados e afectados pelo VIH/Sida e outras patologias infecciosas e a promoção e educação para a saúde e o seu âmbito de acção abrange todo o território nacional e tem como objectivos:

  1. a) Desenvolver actividades no sentido de rastreio e profilaxia do VIH/Sida e de outras patologias infecciosas, contribuindo para a sua detecção precoce.
  2. b) Colaborar e dinamizar acções de prevenção e tratamento da infecção pelo VIH/Sida e outras patologias infecciosas.
  3. c) Cooperar quer com as autoridades oficiais no campo da saúde, quer com quaisquer outras pessoas, singulares ou colectivas, na promoção da saúde e na prevenção e tratamento da infecção pelo VIH/Sida e outras patologias infecciosas.
  4. d) Realizar e apoiar estudos sobre a infecção do VIH/Sida e outras patologias infecciosas.
  5. e) Estabelecer relações com organismos nacionais e estrangeiros de natureza similar.
  6. f) Cooperar de forma activa em programas e projectos com países em vias de desenvolvimento no âmbito da promoção e educação para a saúde.
  7. g) Desenvolver actividades formativas sob a forma de cursos, oficinas, acções de sensibilização/informação.
  8. h) Contribuir para a promoção de igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres.
  9. i) Promover comportamentos saudáveis junto de populações mais vulneráveis.
  10. j) Desenvolver actividades no âmbito da educação sexual e saúde reprodutiva.

Articulação Estado-Sociedade civil no âmbito da SIDA: Portugal é um caso de sucesso? O que faria falta para que isso aconteça? 

  • Na minha perspetiva, penso que sim, e posso falar enquanto instituição mais antiga na área do VIH, com 27 anos de existência, mas também enquanto cofundadora do Fórum Nacional da Sociedade Civil para o VIH, constituído através do despacho nº 22811/2009 do Gabinete da Ministra da Saúde, Dra. Ana Jorge, que agrupa a maior parte das organizações de base comunitárias, que surgiram após a LIGA, como a Abraço, a SOL, o Positivo, o MAPS, a FPCCS, o GADS hoje SER +, a SERES entre outras,  uma estrutura consultiva do Programa Nacional para a Infeção VIH Sida que actualmente engloba a Tuberculose e o Programa Nacional para as Hepatites Virais, no âmbito da Direção-Geral da Saúde (DGS), que visa promover a participação activa da sociedade civil no âmbito da prevenção e controlo das infecções por VIH e SIDA, Tuberculose e Hepatites Virais, tendo como objetivos, nomeadamente:
  • Assegurar o contributo da sociedade civil para o desenvolvimento, implementação, monitorização e avaliação das políticas relativas às infeções por VIH e SIDA, Tuberculose e Hepatites Virais;
  • Estimular o trabalho em rede das organizações da sociedade civil;
  • Pronunciar-se, quando solicitado, sobre acções, iniciativas ou projectos concretos de execução do Programa Nacional para a Infeção VIH SIDA e Tuberculose e do Programa Nacional para as Hepatites Virais;

Aproxima-se o Natal. Qual a sua lista de 3 desejos para o Pai Natal, imaginando que estes lhe sejam todos concedidos. 

A lista data desde a nossa fundação e é para ser concretizada até 2030, conforme o desafio feito pela UNAIDS:  Acabar com a epidemiado VIH –  0% de Novas Infecções – 0% Discriminação – 0% Mortes .

 

Maria Eugénia Saraiva, Presidente da Liga Portuguesa Contra a Sida

By | 2018-04-10T12:07:18+01:00 Novembro 22nd, 2017|Categories: ENTREVISTAS|Comentários fechados em Entrevista a Maria Eugénia Saraiva, Presidente da Liga Portuguesa Contra a Sida

About the Author:

Uma Trajetória de Sucesso em Colaboração, Inovação e Empreendedorismo Social --> Formação Acadêmica e Experiência Docente: Formado em Psicologia Social e das Organizações pelo ISPA, Paulo Nunes de Abreu possui mestrado em Gestão de Informação pela Universidade de Sheffield e doutoramento em Ciências da Gestão pela Universidade de Lancaster. Entre 1996 e 2000, atuou como professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada e na ISEG (Escola de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa). Experiência profissional como Consultor: Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, Paulo concluiu seu doutoramento em 2000. Desde então, acumulou vasta experiência como consultor, colaborando com o Governo Regional da Madeira (Direção Regional de Saúde) e participando em diversos projetos de consultoria e investigação com instituições de renome como o ISEG, INETI, Câmara Municipal de Évora, EDP, Ministério da Saúde de Portugal, Eureko BV, Observatório Europeu da Droga e PWC em Espanha. Especializações e Contribuições Relevantes: Certificado como facilitador profissional pela IAF (International Association of Facilitators), Paulo teve um papel crucial na criação das Cimeiras Ibéricas de Líderes de Saúde na Espanha e foi co-fundador do Fórum do Hospital do Futuro em Portugal. Especializado em GDSS (sistemas de apoio à decisão em grupo), projetou intervenções para otimizar processos de mudança e inovação nos setores de saúde e educação. Atuação Atual e Abordagem Profissional: Desde 2021, Paulo é cofundador da col.lab | collaboration laboratory Ltd., empresa sediada em Londres e spin-off da série de livros "Arquitetar a Colaboração", que aborda princípios, métodos e técnicas de facilitação de grupos. Sua trajetória, combinada com a experiência como residente em vários países e atualmente em Portugal, moldou uma abordagem profissional focada em colaboração, inovação e empreendedorismo social.