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O vil metal

A ideia para este texto surgiu de um gráfico partilhado pelo economista e gestor Jaime Quesado numa rede social por ele curada em Whatsapp – Knowledge Sharing – da qual tenho o prazer e a honra de fazer parte.

E para que não fiquem dúvidas e possam avaliar cada um de vós os meus motivos, partilho essa mensagem aqui:

Naturalmente podem querer os meus leitores indagar sobre a fonte desta informação que pode ser acedida aqui Summer 2021 Economic Forecast: Reopening fuels recovery e muitos poderão perguntar:

Mas que diabo tem a ver o ritmo de crescimento económico da recuperação de Portugal com a saúde?

Recordo claramente as poucas disciplinas sobre Economia que tive na minha licenciatura e mais tarde no mestrado em Sheffield e, mais aprofundadas, durante o meu doutoramente em ciências da gestão, mas reconheço com humildade que sou um leigo nesta matéria.

Tudo o que aqui escrever, os meus amigos economistas que me perdoem, podem atirar com tomates nos comentários, mas são duas ou três as principais razões porque isto nos deve preocupar, e muito, no setor da saúde.

1ª Razão: Combater Um Mal Endémico

Ao contrário da Alemanha e outros países do norte da Europa, Portugal é um país cujo crescimento económico se têm vindo a manter obstinadamente abaixo da média europeia em décadas, começando a divergir do resto de outras econmias (e por comparação mais imediata com a Espanha) a partir do final dos anos 60 e não se tendo observado, após o 25 abril, um esperado efeito de impulso pela instauração de um novo quadro constitucional.

Sem embargo, no final dos anos 70 a criação do SNS português veio revelar-se decisiva para a melhoria das condições de vida dos portugueses e a subida no ranking de Portugal como país desenvolvido. No index de desenvolvimento das Nações Unidas, o país está classificado em 38º lugar o que é considerado “muito elevado”.

Mas o crescimento económico de Portugal comparativamente a Espanha e desde a entrada de ambos na União Europeia, não tem sido outro que de se manter para trás. Enquanto os nossos vizinhos peninsulares ascendem à posição de 13ª economia mundial e sendo hoje um país observador permanente no G20, Portugal não descolou e continua muito lá para trás como a 34ª economia mundial.

Se uma imagem vale por mil palavras, vejamos aqui como dois países com idênticos níveis de produção de riqueza até à entrada de ambos na União Europeia, um deles continua sistemáticamente atrás.

Crescimento económico pelo PIB per capita a preços constantes em doláres (1)

Perante as perspectivas de crescimento de Espanha em 2021, poderíamos ser tentados a perguntar onde estaríamos nós se a economia portuguesa estivesse completamente integrada em Espanha, tal como está o País Basco ou a Catalunha?

Globalmente, prevê-se agora que o PIB cresça 4,8% em 2021 e 4,5% em 2022, tanto na UE como na área do euro.

Desde logo, o que podemos comentar é que:

Ao contrário de outras regiões na Península Ibérica, o facto de Portugal ser uma nação independente em nada contribui para a melhoria do crescimento da sua riqueza e prosperidade.

Esta conclusão poderá parecer algo frívola ou, como dizem em castelhano, baladí, mas se observarmos a comparação com um pequeno país igualmente atlântico, e igualmente vizinho de um país maior – a Irlanda – vemos que a situação é deveras preocupante:

Fonte: Knoema.com (2)

É pouco compreensível que Portugal não consiga aproveitar a sua posição estratégica no mundo e a sua independência política para obter um crescimento acima da média europeia, tal como o faz a Irlanda.

2ª Razão: Combater o Sub-Financiamento da Saúde

É por todos reconhecido que o nível de desempenho do SNS comparativamente à escassez dos seus recursos coloca-o num lugar cimeiro em matéria de eficiência comparado com outros serviços nacionais de saúde e dentro do país, entre regiões, sabemos que a maioria dos hospitais na região norte, dão um capote quando comparados com grandes hospitais em Lisboa ou Coimbra.

Mas para conseguirmos sair deste enorme deficit de investimento com reflexos dramáticos na vida de um milhão de portugueses que continuam sem médico de família é preciso mais dinheiro o qual, num país sem recursos naturais, só poderá ser arrecadado através de impostos.

A recuperação do financiamento do SNS só será possível quando tivermos uma economia pujante, com os mais elevados níveis de criação de emprego e riqueza pela iniciativa privada, geradores de mais receitas fiscais.

Se é verdade que o Ministério da Saúde consegue hoje fazer milagres na redução de despesa através da ação diária dos gestores dos hospitais e centros de saúde, das administração regionais e centrais de saúde, como os SPMS ou a ACSS, onde as teleconsultas e a hospitalização domiciliária são claros exemplos de sucesso, é igualmente verdade que isso não chega para solucionar o problema de fundo.

A fórmula para termos uma melhor Saúde em Portugal será aquela que maximiza as suas fontes de financiamento para que a tutela da pasta possa ultrapassar, desse modo, os bloqueios impostos por ministros das finanças de um país que não sabe como enriquecer.

3ª Razão: Combater a Desconfiança

Depois de uma curta estadia de 2 anos no Reino Unido, há uns anos atrás mudei-me para Espanha e tem sido com um olhar de fora que acompanho de perto a evolução de Portugal. Nunca me surpreendeu a diferença de escala no montante em causa nos escândalos e na corrupção mas, igualmente, no duro e implacável combate aos mesmos.

Regressado a Portugal vejo com imenso agrado que, finalmente, a justiça começa a funcionar de forma eficaz para combater um cancro que mina qualquer sociedade – o enriquecimento ilícito e a fuga sistemática ao pagamento de impostos pelos detentores de grandes fortunas.

Gestores exemplares como Zeinal Bava, banqueiros venerados em Espanha como Ricardo Salgado (o BES era uma marca que prestigiava Portugal), políticos admirados na Alemanha como José Sócrates, empresários filantrópicos como Joe Berardo, caem no mais profundo descrédito e são objeto do humor tão característico do Gato Político como evidencía esta imagem.

Mas é evidente que, no momento em que praticaram estes atos, nenhuma destas pessoas estava consciente do mal que isso poderia causar à sua imagem pessoal e esse é hoje uma dado novo na sociedade portuguesa que servirá de aviso dissuasório para outros.

Espero que esta limpeza a fundo iniciada pela Comissão Parlamentar de Inquérito, não pare por aqui e que quem tenha estado, mesmo que por omissão, associado aos empréstimos ruinosos do Novo Banco e nomeado para presidir ao Banco de Fomento tenha um assomo de dignidade para colocar de imediato o seu lugar à disposição.

Para que a recuperação de Portugal possa ser um êxito, para conseguir que a economia portuguesa dê um salto qualitativo para propiciar mais recursos para a saúde, é fundamental um aproveitamento exemplar dos fundos do PRR e do novo quadro comunitário sem a mais mínima suspeita de fraude ou corrupção.

É preciso que impere a confiança para que a sociedade no seu conjunto se possa olhar, olhos nos olhos, sabendo que todos estamos a remar para o mesmo lado e que quem procurar enganar ou corromper será inexoravelmente exposto.

A saúde dos portugueses depende em muito disto.

PS: Interessam-lhe os dados em saúde?

Já estão abertas as inscrições para aquele que é o mais especializado evento global de dados em saúde, deste lado do Atlântico – Health Data Forum Global Hybrid Summit – este ano na invicta cidade do Porto. Reserve o seu lugar para a sua presença in-situ (máximo permitido hoje: 50 assistentes) ou virtualmente: aqui.

Referências

(1) O PIB per capita é o produto interno bruto dividido pela população em meados do ano. O PIB é a soma do valor bruto adicionado por todos os produtores residentes na economia mais quaisquer impostos sobre os produtos e menos quaisquer subsídios não incluídos no valor dos produtos. É calculado sem fazer deduções para depreciação de ativos fabricados ou para esgotamento e degradação de recursos naturais. Os dados estão em dólares americanos atuais.

(2) https://knoema.com/atlas/Portugal/topics/Economy/National-Accounts-Gross-Domestic-Product/GDP-per-capita?compareTo=ES,IE

Crédito da imagem:

https://www.un.org/sustainabledevelopment/blog/2015/12/on-anti-corruption-day-un-says-ending-corrosive-crime-can-boost-sustainable-development/

By | 2021-09-12T16:51:43+01:00 Julho 12th, 2021|Categories: EDITORIAL|Comentários fechados em O vil metal

About the Author:

Uma Trajetória de Sucesso em Colaboração, Inovação e Empreendedorismo Social --> Formação Acadêmica e Experiência Docente: Formado em Psicologia Social e das Organizações pelo ISPA, Paulo Nunes de Abreu possui mestrado em Gestão de Informação pela Universidade de Sheffield e doutoramento em Ciências da Gestão pela Universidade de Lancaster. Entre 1996 e 2000, atuou como professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada e na ISEG (Escola de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa). Experiência profissional como Consultor: Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, Paulo concluiu seu doutoramento em 2000. Desde então, acumulou vasta experiência como consultor, colaborando com o Governo Regional da Madeira (Direção Regional de Saúde) e participando em diversos projetos de consultoria e investigação com instituições de renome como o ISEG, INETI, Câmara Municipal de Évora, EDP, Ministério da Saúde de Portugal, Eureko BV, Observatório Europeu da Droga e PWC em Espanha. Especializações e Contribuições Relevantes: Certificado como facilitador profissional pela IAF (International Association of Facilitators), Paulo teve um papel crucial na criação das Cimeiras Ibéricas de Líderes de Saúde na Espanha e foi co-fundador do Fórum do Hospital do Futuro em Portugal. Especializado em GDSS (sistemas de apoio à decisão em grupo), projetou intervenções para otimizar processos de mudança e inovação nos setores de saúde e educação. Atuação Atual e Abordagem Profissional: Desde 2021, Paulo é cofundador da col.lab | collaboration laboratory Ltd., empresa sediada em Londres e spin-off da série de livros "Arquitetar a Colaboração", que aborda princípios, métodos e técnicas de facilitação de grupos. Sua trajetória, combinada com a experiência como residente em vários países e atualmente em Portugal, moldou uma abordagem profissional focada em colaboração, inovação e empreendedorismo social.